Durante muito tempo, acreditou-se que fortalecer a autoestima de uma criança significava elogiá-la constantemente. Frases como “Você é incrível!”, “Você é o melhor!” ou “Você consegue tudo!” passaram a fazer parte da rotina de muitas famílias com a intenção de incentivar e proteger os filhos.
Mas, nos últimos anos, a Psicologia tem mostrado que a autoestima é construída de uma forma muito mais profunda.
Isso não significa que os elogios sejam prejudiciais. Eles têm seu lugar e podem ser importantes. O problema é quando a autoestima da criança passa a depender apenas da aprovação dos adultos.
A verdadeira autoestima não nasce quando a criança ouve que é capaz.
Ela nasce quando ela descobre, por si mesma, que é capaz.
O que realmente é autoestima?
Autoestima não significa acreditar que somos bons em tudo.
Também não significa sentir-se feliz o tempo inteiro ou nunca duvidar de si mesmo.
Uma autoestima saudável é a capacidade de reconhecer o próprio valor, mesmo diante dos erros, das dificuldades e das imperfeições.
É saber que um fracasso não define quem somos.
E essa percepção não é construída apenas através das palavras.
Ela é construída através das experiências.
O elogio é importante, mas não é suficiente
É natural que os pais elogiem seus filhos.
O reconhecimento fortalece o vínculo e ajuda a criança a perceber que seus esforços são valorizados.
Mas quando os elogios acontecem o tempo todo ou são muito genéricos, podem perder o efeito.
Além disso, algumas crianças passam a buscar constantemente a aprovação dos adultos.
Em vez de perguntar:
“Gostei do que fiz?”
começam a perguntar:
“Será que gostaram do que eu fiz?”
A autoestima deixa de ser interna e passa a depender do olhar do outro.
A criança precisa experimentar desafios
Dentro de uma visão sistêmica, a autoestima também é construída na relação da criança com o mundo.
Quando ela enfrenta um desafio, tenta novamente depois de errar e percebe que conseguiu superar uma dificuldade, desenvolve confiança em si mesma.
Isso significa que proteger os filhos de toda frustração pode, sem querer, dificultar o fortalecimento da autoestima.
A confiança nasce quando a criança percebe que consegue enfrentar desafios, e não quando alguém faz tudo por ela.
Valorize o processo, não apenas o resultado
Uma mudança simples pode fazer muita diferença.
Em vez de elogiar apenas o sucesso, experimente reconhecer aspectos como:
- dedicação;
- persistência;
- coragem para tentar;
- criatividade;
- responsabilidade;
- empenho.
Por exemplo, em vez de dizer:
“Você é muito inteligente.”
você pode dizer:
“Percebi o quanto você se dedicou para resolver esse problema.”
Esse tipo de reconhecimento ajuda a criança a compreender que suas conquistas estão relacionadas ao esforço e ao aprendizado, e não apenas a características fixas.
Permita que seu filho faça coisas sozinho
Às vezes, na tentativa de ajudar, os pais acabam fazendo pela criança aquilo que ela já seria capaz de fazer.
Amarram o tênis.
Organizam a mochila.
Resolvem conflitos.
Respondem por ela.
Embora essas atitudes sejam motivadas pelo cuidado, também reduzem oportunidades importantes de desenvolver autonomia.
Cada pequena conquista vivida pela própria criança fortalece sua percepção de competência.
E isso alimenta a autoestima de forma muito mais consistente do que qualquer elogio.
Errar também fortalece a autoestima
Pode parecer contraditório, mas uma criança que nunca erra dificilmente desenvolve uma autoestima sólida.
Isso porque ela não aprende que é capaz de enfrentar dificuldades.
Quando os pais acolhem os erros sem humilhar, comparar ou exagerar nas críticas, transmitem uma mensagem importante:
“Você pode errar e continuar sendo amado.”
Essa é uma das bases da segurança emocional.
O exemplo dos pais também ensina
As crianças observam como os adultos falam sobre si mesmos.
Quando convivem com pais que se criticam o tempo todo, dizem que nunca fazem nada direito ou demonstram vergonha constante dos próprios erros, aprendem uma forma muito dura de olhar para si.
Por outro lado, quando observam adultos que reconhecem limitações, aprendem com os erros e seguem em frente, desenvolvem uma visão mais saudável sobre o próprio valor.
Como fortalecer a autoestima no dia a dia?
Algumas atitudes costumam fazer diferença:
Escute seu filho com atenção
Sentir-se ouvido ajuda a criança a perceber que ela é importante.
Incentive a autonomia
Permita que ela experimente, tente, erre e encontre soluções.
Evite comparações
Cada criança possui seu próprio ritmo de desenvolvimento.
Demonstre amor também nos momentos difíceis
É justamente quando a criança erra que ela mais precisa perceber que seu valor não está em jogo.
Quando buscar ajuda profissional?
Se a criança demonstra baixa autoestima persistente, evita desafios por medo de errar, depende constantemente da aprovação dos outros ou apresenta sofrimento emocional significativo, o acompanhamento psicológico pode ajudá-la a desenvolver uma percepção mais saudável sobre si mesma.
A terapia também pode apoiar os pais na construção de estratégias que favoreçam o desenvolvimento emocional dos filhos.
A autoestima não cresce com palavras. Cresce com experiências.
Os elogios têm seu valor.
Mas eles não substituem aquilo que realmente fortalece uma criança: sentir que é amada, respeitada e capaz de enfrentar os desafios da vida.
Talvez a melhor forma de ajudar um filho a acreditar em si mesmo não seja repetir que ele consegue tudo.
Seja oferecer oportunidades para que ele descubra, pouco a pouco, tudo aquilo de que realmente é capaz.