Alguns pais descrevem os filhos como crianças que parecem esperar que tudo seja dito ou resolvido pelos adultos. É preciso lembrar de cada tarefa, pedir várias vezes para que organizem seus materiais, insistir para que estudem ou até sugerir brincadeiras porque, sozinhos, parecem não saber por onde começar.
Com o tempo, surge a preocupação:
Meu filho não tem iniciativa. Isso é normal?
Nem sempre a falta de iniciativa significa preguiça, desinteresse ou falta de responsabilidade.
Em muitos casos, ela pode estar relacionada ao desenvolvimento da autonomia, à insegurança, ao medo de errar ou até mesmo à forma como a dinâmica familiar foi sendo construída ao longo dos anos.
Antes de tentar mudar esse comportamento, vale a pena compreender o que pode estar por trás dele.
O que é ter iniciativa?
Ter iniciativa significa ser capaz de perceber uma necessidade e agir sem depender o tempo todo da orientação de outra pessoa.
É a criança que:
- começa a fazer o dever sem ser lembrada;
- organiza seus materiais;
- procura soluções para pequenos problemas;
- toma decisões compatíveis com sua idade;
- propõe brincadeiras ou atividades.
Essa habilidade não nasce pronta.
Ela é desenvolvida aos poucos, conforme a criança ganha oportunidades para experimentar, decidir e assumir pequenas responsabilidades.
Autonomia se aprende
Nenhuma criança acorda, de um dia para o outro, sabendo organizar sua rotina ou assumir responsabilidades.
A autonomia é construída através das experiências do cotidiano.
Quando a criança participa das tarefas da casa, resolve pequenos problemas e faz escolhas adequadas à sua idade, ela começa a perceber que é capaz.
Essa percepção fortalece sua confiança e aumenta a disposição para agir por conta própria.
O medo de errar pode bloquear a iniciativa
Muitas crianças não deixam de agir porque não querem.
Elas deixam de agir porque têm medo de fazer errado.
Quando cresceram ouvindo muitas críticas, sendo corrigidas constantemente ou percebendo que os adultos refazem tudo o que fazem, podem concluir que é melhor não tentar.
Afinal, se qualquer erro será apontado, a iniciativa passa a representar um risco.
Por isso, antes de dizer que uma criança é “acomodada”, vale a pena perguntar:
Será que ela não está com medo de errar?
Fazer tudo pelo filho pode dificultar a autonomia
Todo pai e toda mãe gostam de ajudar.
O problema surge quando ajudar significa substituir a criança em tarefas que ela já poderia realizar sozinha.
Arrumar a mochila.
Guardar os brinquedos.
Resolver conflitos com colegas.
Fazer o trabalho escolar.
Lembrar de todas as responsabilidades.
Quando isso acontece repetidamente, a criança pode aprender que sempre haverá alguém para assumir aquilo que é dela.
Dentro de uma visão sistêmica, muitas vezes a falta de iniciativa não está apenas na criança, mas na forma como a família se organiza.
Dar autonomia não significa abandonar
Existe uma diferença importante entre incentivar a autonomia e deixar a criança sem apoio.
Ela continua precisando da presença dos pais.
A diferença é que essa presença passa a ser de orientação e incentivo, e não de substituição.
Em vez de fazer por ela, os pais podem perguntar:
- “Como você acha que pode resolver isso?”
- “Por onde você gostaria de começar?”
- “O que você precisa para conseguir fazer essa tarefa?”
Essas perguntas ajudam a criança a desenvolver pensamento, planejamento e confiança.
O excesso de atividades também pode influenciar
Hoje, muitas crianças vivem uma rotina completamente organizada pelos adultos.
Escola, esportes, cursos, horários, lazer.
Quando tudo já está planejado, sobra pouco espaço para que elas tomem iniciativas, façam escolhas ou criem soluções.
Ter momentos de brincadeira livre e tempo sem uma programação rígida também favorece o desenvolvimento da autonomia.
Como incentivar a iniciativa?
Algumas atitudes costumam ajudar:
Ofereça pequenas responsabilidades
A autonomia se desenvolve aos poucos.
Comece com tarefas simples e compatíveis com a idade da criança.
Permita que ela resolva pequenos problemas
Nem toda dificuldade precisa ser solucionada imediatamente pelos adultos.
Valorize a tentativa
Mesmo quando o resultado não é perfeito, reconhecer o esforço fortalece a confiança.
Evite controlar todos os passos
Quando os pais lembram, corrigem e supervisionam tudo o tempo inteiro, a criança pode esperar sempre por uma orientação antes de agir.
Quando buscar ajuda profissional?
Se a falta de iniciativa vier acompanhada de ansiedade intensa, medo excessivo de errar, dificuldades importantes na escola, baixa autoestima ou prejuízos significativos no dia a dia, vale a pena buscar uma avaliação psicológica.
Em alguns casos, o comportamento pode estar relacionado a questões emocionais que precisam ser compreendidas com mais profundidade.
A terapia pode ajudar a criança a desenvolver mais segurança, autonomia e confiança nas próprias capacidades.
A iniciativa nasce quando a criança percebe que é capaz
Muitas vezes, os pais acreditam que a iniciativa aparece primeiro e a confiança vem depois.
Mas, na realidade, costuma acontecer o contrário.
A criança toma iniciativa quando começa a acreditar que pode tentar, errar, aprender e continuar sendo apoiada.
Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja:
“Como faço meu filho ter mais iniciativa?”
Mas sim:
“Será que estou oferecendo oportunidades para que ele descubra tudo o que já é capaz de fazer sozinho?”
Porque crianças autônomas não são aquelas que nunca precisam de ajuda.
São aquelas que sabem que podem contar com os pais, mas que também aprendem, pouco a pouco, a confiar em si mesmas.