Ver um filho sofrer por causa de uma amizade costuma ser difícil para qualquer pai ou mãe. Quando uma criança ou adolescente chega em casa triste, chorando ou frustrado após uma discussão com um amigo, é natural sentir vontade de resolver a situação imediatamente.
Muitos pais se perguntam:
“Devo conversar com os outros pais?”
“Preciso intervir?”
“Devo orientá-lo a se afastar?”
Embora o desejo de proteger seja compreensível, os conflitos entre amigos também fazem parte do desenvolvimento emocional e social. Aprender a lidar com diferenças, decepções e desentendimentos é uma habilidade importante para a vida.
Por isso, antes de tentar resolver o problema, vale a pena entender o que está acontecendo e como ajudar seu filho a atravessar essa experiência.
Conflitos fazem parte das amizades
Muitas crianças e adolescentes acreditam que uma amizade saudável é aquela em que nunca existem brigas.
Mas isso não corresponde à realidade.
Qualquer relação próxima envolve:
- diferenças;
- frustrações;
- mal-entendidos;
- expectativas;
- momentos de discordância.
Brigar com um amigo não significa necessariamente que a amizade acabou ou que algo está errado.
Em muitos casos, os conflitos ajudam as crianças a aprender habilidades importantes de convivência.
O primeiro passo é acolher
Quando os filhos procuram os pais após uma briga, geralmente estão buscando algo antes dos conselhos: acolhimento.
É comum que os adultos tentem rapidamente encontrar soluções.
Mas frases como:
- “Deixa isso para lá.”
- “Procure outros amigos.”
- “Isso não é importante.”
podem fazer a criança sentir que suas emoções não estão sendo compreendidas.
Antes de orientar, procure ouvir.
Perguntas como:
- “O que aconteceu?”
- “Como você se sentiu?”
- “O que foi mais difícil para você?”
ajudam a criança a organizar suas emoções e se sentir compreendida.
Nem todo conflito precisa da intervenção dos pais
Uma das maiores dificuldades para muitas famílias é diferenciar situações que exigem intervenção daquelas que podem ser resolvidas pelas próprias crianças ou adolescentes.
Sempre que possível, é importante permitir que os filhos desenvolvam recursos para:
- conversar;
- negociar;
- pedir desculpas;
- expressar sentimentos;
- resolver desentendimentos.
Quando os adultos resolvem todos os conflitos, as crianças perdem oportunidades valiosas de aprendizagem social.
Quando vale a pena intervir?
Existem situações em que a participação dos pais pode ser necessária.
Por exemplo:
- bullying;
- humilhações frequentes;
- agressões físicas;
- exclusão sistemática;
- ameaças;
- sofrimento emocional intenso.
Nesses casos, o conflito ultrapassa uma discordância comum entre amigos e merece atenção mais cuidadosa.
Ajude seu filho a olhar para a situação por diferentes perspectivas
Quando estamos magoados, tendemos a enxergar apenas o nosso lado da história.
As crianças e os adolescentes também fazem isso.
Por isso, pode ser útil ajudá-los a refletir:
- O que você acha que seu amigo sentiu?
- Houve algum mal-entendido?
- Existe algo que você gostaria de dizer para ele?
- Como você gostaria que essa situação fosse resolvida?
Esse exercício favorece empatia e desenvolvimento emocional.
A amizade também envolve reparação
Uma habilidade importante que muitas crianças precisam aprender é que relações saudáveis não dependem da ausência de conflitos.
Elas dependem da capacidade de reparar os conflitos quando eles acontecem.
Aprender a:
- pedir desculpas;
- ouvir o outro;
- reconhecer erros;
- reconstruir a confiança
faz parte do desenvolvimento das relações.
E quando o filho pede que os pais resolvam tudo?
Isso acontece com frequência, especialmente na infância.
Nesses momentos, os pais podem acolher sem assumir completamente a responsabilidade pela situação.
Em vez de resolver o problema, podem ajudar a criança a pensar em alternativas:
- O que você gostaria de dizer ao seu amigo?
- Como posso ajudá-lo a conversar com ele?
- O que você acredita que poderia melhorar essa situação?
Assim, os pais continuam sendo apoio sem ocupar o lugar que pertence à criança.
As amizades também ensinam sobre a vida
Dentro de uma visão sistêmica, os conflitos entre amigos são oportunidades de crescimento.
Eles ajudam as crianças e adolescentes a desenvolver:
- tolerância às diferenças;
- comunicação;
- empatia;
- resolução de problemas;
- regulação emocional.
Embora seja difícil assistir ao sofrimento dos filhos, nem sempre a melhor ajuda é eliminar a dificuldade.
Muitas vezes, a melhor ajuda é caminhar ao lado deles enquanto aprendem a enfrentá-la.
O objetivo não é evitar todos os conflitos
Os pais não conseguem impedir que os filhos se decepcionem, discutam ou se magoem ao longo da vida.
E nem precisam.
O mais importante é ajudá-los a desenvolver recursos emocionais para lidar com essas experiências.
Porque amizades saudáveis não são aquelas que nunca enfrentam problemas.
São aquelas em que as pessoas aprendem, pouco a pouco, a lidar com eles.