Toda família enfrenta conflitos. Divergências fazem parte da convivência e não significam, por si só, que exista um problema no relacionamento. O que merece atenção é quando os filhos deixam de ser apenas testemunhas dessas dificuldades e passam a ocupar um lugar que não lhes pertence.
Isso pode acontecer de maneira muito sutil.
Um pai pede que o filho dê sua opinião sobre uma discussão do casal.
Uma mãe desabafa sobre o comportamento do parceiro para a filha.
Os adultos usam a criança para transmitir recados ou esperam que ela ajude a resolver os conflitos da casa.
Na maioria das vezes, isso acontece sem intenção de prejudicar os filhos.
Mas, do ponto de vista emocional, o impacto pode ser significativo.
As crianças e os adolescentes precisam ocupar o lugar de filhos. Não o de mediadores, conselheiros ou aliados em disputas entre os pais.
Os conflitos pertencem ao casal
Quando um relacionamento enfrenta dificuldades, é natural que os adultos procurem apoio.
O problema surge quando esse apoio é buscado nos próprios filhos.
Frases como:
“Você acha que seu pai está certo?”
“Sua mãe exagerou, não foi?”
“Só você me entende aqui em casa.”
podem parecer inofensivas, mas colocam sobre a criança uma responsabilidade que ela não tem condições emocionais de assumir.
Os filhos amam os dois pais.
Por isso, quando precisam escolher um lado, costumam sentir culpa, ansiedade e insegurança.
A criança tenta proteger quem ama
É comum que crianças e adolescentes percebam o sofrimento dos pais.
Muitas vezes, tentam ajudar da única maneira que conhecem.
Alguns passam a evitar dar trabalho.
Outros escondem seus próprios problemas para não preocupar a família.
Há também aqueles que assumem responsabilidades que não correspondem à sua idade ou tentam aproximar os pais para evitar novas discussões.
Embora essas atitudes pareçam demonstrações de maturidade, elas podem representar um peso emocional muito grande.
Quando o filho se torna mediador
Dentro da abordagem sistêmica, existe uma dinâmica conhecida como triangulação.
Ela acontece quando um conflito entre duas pessoas passa a envolver uma terceira como forma de aliviar a tensão da relação.
Na família, isso pode ocorrer quando o filho é colocado entre pai e mãe, assumindo funções que pertencem aos adultos.
Ele pode se tornar:
- mensageiro;
- confidente;
- juiz;
- conselheiro;
- responsável por manter a paz da casa.
Esse lugar costuma gerar sofrimento porque a criança tenta resolver um problema que não é dela.
O impacto pode aparecer de diferentes formas
Nem sempre o sofrimento fica evidente.
Algumas crianças tornam-se mais ansiosas.
Outras apresentam irritabilidade, dificuldades escolares, alterações no sono ou isolamento.
Também podem surgir sentimentos de culpa, medo constante de novas discussões ou necessidade de agradar os dois lados.
Na adolescência, esses conflitos podem se manifestar através do afastamento da família ou da dificuldade em confiar nas relações.
Proteger os filhos não significa esconder que existem conflitos
Alguns pais acreditam que nunca devem discutir na frente das crianças.
Na prática, isso nem sempre é possível.
Os filhos podem perceber que existem divergências.
O mais importante é que eles também vejam que os adultos conseguem conversar, pedir desculpas, encontrar soluções e reparar os conflitos.
Essa é uma aprendizagem valiosa.
O problema não é a existência de diferenças.
É quando os filhos passam a carregar o peso dessas diferenças.
Como evitar que os filhos ocupem esse lugar?
Algumas atitudes ajudam a proteger a saúde emocional das crianças e dos adolescentes:
- conversem diretamente entre vocês, sem usar os filhos como intermediários;
- evitem fazer comentários negativos sobre o outro responsável na frente das crianças;
- não peçam que o filho escolha um lado ou dê razão a um dos pais;
- procurem apoio em amigos, familiares ou profissionais, e não nos filhos;
- lembrem-se de que a função da criança é crescer, brincar, estudar e se desenvolver, não cuidar das emoções dos adultos.
Quando buscar ajuda profissional?
Se os conflitos do casal estão frequentes, os filhos demonstram sofrimento emocional ou a comunicação entre os adultos se tornou muito difícil, a terapia pode ser um espaço importante.
O acompanhamento psicológico ajuda a reorganizar a dinâmica familiar, fortalecer a coparentalidade e construir formas mais saudáveis de lidar com as diferenças.
Buscar ajuda é também uma maneira de proteger o desenvolvimento emocional dos filhos.
Os filhos precisam de pais. Não de um papel dentro do conflito.
As crianças não têm maturidade emocional para carregar problemas que pertencem aos adultos.
Quando são colocadas no centro das discussões, podem crescer acreditando que precisam cuidar das relações, evitar conflitos ou assumir responsabilidades que nunca foram suas.
Talvez uma das maiores demonstrações de cuidado que um pai e uma mãe possam oferecer seja esta:
Resolver seus conflitos sem transformar os filhos em participantes deles.
Porque uma infância segura não é aquela em que nunca existem dificuldades.
É aquela em que a criança sabe que os adultos continuam ocupando o lugar que lhes pertence: o de cuidar dela.