Criar um filho exige decisões diárias. Em algum momento, é natural que pai e mãe tenham opiniões diferentes sobre regras, limites, rotina, uso de telas, escola ou a forma de lidar com determinados comportamentos.
Discordar faz parte de qualquer relacionamento.
O problema não está nas diferenças.
O problema começa quando essas diferenças acontecem na frente dos filhos e um dos pais desautoriza constantemente o outro.
Situações como essa são mais comuns do que parecem.
Um dos pais estabelece um limite e, logo em seguida, o outro diz:
“Deixa, não precisa disso.”
Ou promete algo que já havia sido negado.
Ou critica a decisão do parceiro diante da criança.
Embora muitas vezes isso aconteça sem má intenção, essas atitudes podem gerar insegurança para os filhos e enfraquecer a parceria necessária para educá-los.
Pensar diferente não é o problema
Nenhum casal concorda em tudo.
Cada pessoa traz para a parentalidade sua própria história, os valores com os quais foi criada e suas experiências de vida.
Por isso, é esperado que existam opiniões diferentes sobre a educação dos filhos.
O desafio não é eliminar essas diferenças.
É aprender a conversar sobre elas sem transformar a criança em espectadora ou participante do conflito.
O casal pode deixar de existir. O casal parental continua.
Dentro da abordagem sistêmica, fazemos uma distinção importante entre o casal conjugal e o casal parental.
O casal conjugal é formado pela relação afetiva entre duas pessoas.
O casal parental é formado pela responsabilidade compartilhada de cuidar dos filhos.
Mesmo quando existe separação, conflitos ou o fim do relacionamento amoroso, o casal parental continua existindo.
E é justamente essa parceria que oferece segurança emocional às crianças.
Quando um desautoriza o outro, a criança recebe mensagens confusas
As crianças precisam de previsibilidade.
Precisam compreender que existem regras, limites e adultos responsáveis por conduzir a família.
Quando um dos pais desfaz constantemente aquilo que o outro decidiu, a criança pode começar a pensar:
- “Se meu pai disse não, talvez minha mãe diga sim.”
- “Se eu insistir bastante, alguém vai mudar de ideia.”
- “As regras dependem de quem está comigo.”
Sem perceber, os próprios adultos podem incentivar um movimento em que os filhos passam a negociar as regras entre eles.
O impacto vai além da obediência
Muitas pessoas acreditam que o único problema da desautorização é a dificuldade em fazer a criança obedecer.
Mas os efeitos costumam ser mais profundos.
Quando os pais entram em disputa na frente dos filhos, a criança pode sentir:
- insegurança;
- ansiedade;
- dificuldade para compreender os limites;
- necessidade de escolher um dos pais;
- culpa por perceber que gera conflitos entre eles.
Nenhuma criança deveria ocupar esse lugar.
Ela precisa sentir que os adultos conseguem assumir a responsabilidade pela educação.
Discordâncias devem acontecer entre os adultos
Isso não significa que um dos pais precise concordar com tudo o que o outro faz.
Existirão momentos em que será necessário rever uma decisão.
Mas essa conversa deve acontecer entre os adultos.
Se um dos pais acredita que determinada consequência foi exagerada, o ideal é conversar em particular e, juntos, decidir qual será a melhor forma de conduzir a situação.
Mais importante do que sempre tomar a decisão perfeita é mostrar aos filhos que os adultos conseguem dialogar com respeito.
O exemplo também educa
As crianças aprendem muito mais observando do que ouvindo.
Quando presenciam pais que conseguem discordar com respeito, negociar e chegar a acordos, desenvolvem referências importantes sobre convivência, comunicação e resolução de conflitos.
Por outro lado, quando crescem em um ambiente onde um adulto desqualifica constantemente o outro, podem aprender que essa é a forma natural de lidar com diferenças.
E quando os pais são separados?
Após a separação, é comum que existam divergências sobre a educação dos filhos.
Ainda assim, é importante lembrar que o fim do relacionamento conjugal não encerra a responsabilidade compartilhada de cuidar das crianças.
Sempre que possível, as decisões relacionadas aos filhos devem ser tomadas com respeito e diálogo.
Quando um dos pais utiliza a criança para contrariar o outro, quem mais sofre costuma ser o próprio filho.
Como fortalecer o casal parental?
Algumas atitudes ajudam a construir uma parceria mais saudável:
- conversem sobre regras antes de apresentá-las aos filhos;
- evitem corrigir ou desautorizar o outro na frente da criança;
- quando houver discordâncias, conversem em um momento reservado;
- procurem transmitir mensagens coerentes;
- lembrem-se de que o objetivo não é vencer uma discussão, mas oferecer segurança aos filhos.
Quando buscar ajuda profissional?
Se as diferenças na educação dos filhos se transformaram em discussões constantes, prejudicam a convivência familiar ou dificultam a construção de acordos, a terapia pode ser um espaço importante.
O acompanhamento psicológico ajuda o casal a desenvolver formas mais respeitosas de comunicação, fortalecer a coparentalidade e compreender como determinadas dinâmicas podem estar impactando toda a família.
Buscar ajuda não significa que o casal falhou.
Significa reconhecer que educar um filho é um desafio complexo e que ninguém precisa enfrentá-lo sozinho.
Os filhos não precisam de pais que concordem em tudo
Eles precisam de adultos que consigam lidar com as diferenças sem transformá-las em disputas.
Mais do que observar quem está certo, as crianças observam como os pais se tratam.
É dessa convivência que elas aprendem sobre respeito, diálogo e cooperação.
Porque uma família não se fortalece quando todos pensam igual.
Ela se fortalece quando as diferenças podem ser vividas com maturidade, respeito e o compromisso de caminhar na mesma direção: o cuidado com os filhos.